"A Filha Perdida": Maternidade é uma responsabilidade que Esmaga
- Helena Vilaboim

- Jan 11, 2022
- 3 min read
“A Filha Perdida” (The Lost Daughter) é um filme original Netflix que saiu no dia 31 de Dezembro de 2021, e foi dirigido e escrito por Maggie Gyllenhaal. O longa é a adaptação do romance de mesmo nome escrito pela misteriosa Elena Ferrante, que foi lançado em 2006.

A narrativa acompanha Leda (Olivia Colman) durante rápidas férias numa ilha grega. Quando uma grande família chega no mesmo lugar em que ela está, Leda começa a lembrar de sua vida quando era mais jovem e dos erros que cometeu, com os quais ainda não consegue lidar completamente.
O filme é extremamente desconfortante, no sentido de que a relação entre mãe e filhas é exposta pela lente do ressentimento e do egoísmo, uma perspectiva que não tem muito espaço no mundo audiovisual, e continua sendo tabu. É o clássico caso de uma mulher que teve filhos jovem demais, e por isso não conseguiu desenvolver uma vida própria.
“A Filha Perdida” é uma obra extremamente intimista- provavelmente canalizando os romances de Ferrante -, e por isso seu efeito é ainda mais forte nos espectadores, principalmente na audiência feminina, que ao fim do filme é deixada chocada e possivelmente se sentindo examinada minunciosamente.

Isso é refletido tanto nas performances do elenco quanto nos cenários acanhados, dando muito mais espaço para o desenvolvimento e exploração de flashbacks da vida da Leda mais jovem, tendo que cuidar de duas crianças ao mesmo tempo que tenta lançar sua carreira como tradutora e estudiosa. Esses flashbacks podem chegar a ser redundantes, mas eles têm a função muito mais emocional do que estrutural, com o objetivo de incomodar a audiência mesmo.
Seguindo com o sucesso de “Meu Pai”(2020), Olivia Colman consegue novamente acertar em cheio com sua performance. Aqui sua personagem, é uma mulher extremamente marcada pela linha fina entre arrependimento e orgulho próprio, com anseios e necessidades que não fazem sentido para ninguém a não ser ela mesma. É uma performance cheia de nuances, que a atriz ganhadora de dois Oscars entrega perfeitamente.

Nos flashbacks, Jessie Buckley é quem faz o papel de Leda, 20 anos antes. Sua performance é talvez a mais revoltante e ao mesmo tempo com que a audiência mais se relacione. Ela faz o papel da Leda no meio da tempestade muito bem, traçando uma linha bem plausível de causa e efeito entre as duas Ledas.
Além da brilhante Olivia Colman, quem rouba a cena de vez em quando é Dakota Johnson, no papel de Nina, uma jovem mãe cuja presença serve tanto de catalizador quanto como um paralelo entre as duas personagens, que se encontram em situações parecidas, mas que lidam com ela de formas diferentes.

Em termos de técnicas práticas, fica bem claro que Maggie Gyllenhaal tem mais experiência no roteiro do que na direção. Mas embora a cinematografia seja um pouco chatinha, sem correr riscos, e por tanto sem entregar cenas lindas por si só, Gyllenhaal é competente e com certeza “A Filha Perdida” é uma excelente introdução dela na direção de longas. A tendência é que ela se sinta mais confortável em correr mais riscos nas escolhas de planos, inovando a experiência visual de seus próximos filmes.
“A Filha Perdida” é a adaptação de uma narrativa corajosa e intricada, que parece que esperou pacientemente por 15 anos para ser transposta para as telonas da melhor maneira possível, e com um elenco maravilhoso. É um filme que necessita de paciência da parte do espectador, e não é um filme leve para um fim de tarde.




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