Crítica - Elize Matsunaga: Era Uma Vez um Crime
- Clara Ballena
- Jul 13, 2021
- 3 min read

Não é de hoje que documentários sobre crimes brutais e trajetórias de Serial Killers fazem olhares curiosos a maratonarem os percursos que os levam para tamanhas atitudes. Narrados sempre com um olhar distante, e muitas vezes amedrontador, é difícil terminar de assistir a inúmeros e intermináveis documentários de mesma categoria sem sentir um frio na barriga, um sentimento de medo do horror causado e do causador. A produção brasileira documental, Elize Matsunaga: Era Uma Vez um Crime, uma minissérie de 4 episódios com 40 minutos cada, mostra uma nova forma de narrar crimes, trazendo, querendo ou não, uma humanização, esta, sem inocentar ou condenar a entrevistada, que apresenta seu ponto de vista pela primeira vez as câmeras.
A minissérie documental narra a história que chocou o Brasil em 2012 de forma que não segue os acontecimentos em ordem cronológica. Somos apresentados a diferentes anos com o passar dos episódios, entre eles: 2012, o ano do crime; 2016, o julgamento; E 2019: Primeira saída temporária de Elize. Além da presença de Elize, personagens que participaram diretamente no caso são entrevistados, e contam suas percepções da época e atualmente em relação ao caso.
Trazendo uma direção que utiliza de imagens de arquivo, além de filmagens produzidas, não é à toa que o subtítulo seja “Era uma vez um Crime”. Além da insistência de ambos os advogados do caso em colocar a Elize em um papel de que saira da pobreza, e entrado em uma riqueza digna dos contos de fadas, os “personagens” entrevistados encontrados pela equipe parecem ter saído de caricaturas dignas de personagens arquétipos. Legista com caráter duvidoso, Promotor de justiça midiático, advogados que jogam farpas e indiretas, jornalista que acompanhava o caso desde sempre, além de outras figuras que não escondem ou temem dizer falas extremamente machistas. A direção sabe muito bem narrar essas ligações, e a edição garante um diálogo entre os personagens, mesmo estes não presentes em cena.
O ato criminal de Elize e seu julgamento são o tema principal, ele apresenta pontos da defesa, assim como de acusação. Fica claro a intenção de humanização, aprendemos sobre o passado de Elize e somos impactados com sua figura. Com roupas simples e pouca maquiagem, Elize narra os acontecimentos de sua vida, seu crime e o que espera para o futuro, tudo isso enquanto olha diretamente para a câmera, conversando com o público de frente. Apesar da humanização, há também o entendimento da barbaridade do crime (Afirmado pela mesma) e da afirmação que os atos dela foram errados.

A história consegue muito bem apresentar os pontos, o passado, o julgamento e os depoimentos, de forma que não se perde, mesmo não sendo linear, nem cansa o telespectador. Mesmo muitos já sabendo do crime, que foi noticiado em grande escala pelo Brasil, há fatos surpreendentes que raramente eram mostrados na grande mídia, e mesmo sabendo do desfecho, é difícil não assistir até o final.
Além do tema central, há três subtemas destacados que complementam a narrativa e trazem um posicionamento da direção: Como o machismo interferiu, e interfere até hoje, em diversos julgamentos; Como a mídia e noticiários interferiram diretamente na percepção do caso e da criação de sua proporção, e de como o sistema prisional é muitas vezes falho.
A minissérie documental é um excelente trabalho para aqueles que são fissurados no tema, e interessante para os curiosos que viram os desdobramentos do caso. É uma produção que vale a pena assistir, e consegue com clareza, informar e entreter o público que assiste.




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