"Falsos Milionários": É Tudo um Grande Golpe?
- Helena Vilaboim

- Jan 27, 2022
- 3 min read
“Falsos Milionários” (Kajillionaire) é um filme de 2020 escrito e dirigido por Miranda July, que conta apenas 1 hora e 44 minutos de duração. O longa de comédia e drama está disponível na Globo Play (para quem tem o plano ligado ao Telecine) e no Telecine.

A narrativa segue “Old Dolio” (Evan Rachel Wood), uma vigarista de 26 anos que vive com seus pais e mentores. Quando eles têm problemas para pagar o aluguel, Old Dolio tem uma ideia de onde conseguir o dinheiro e no caminho conhece Melanie (Gina Rodriguez), que a ajuda a entender a diferença entre viver e existir e entender seu anseio por conexões verdadeiras.
Um indie instantâneo, provavelmente por influência da experiência de July como atriz, “Falsos Milionários” é um filme que aborda temas complexos com um ar de comédia absurdista que serve como contraste, mas nunca como atenuante às situações pelas quais a protagonista passa. Ele traz peso e seriedade abruptas á uma situação que antes era cômica, invertendo a estrutura que é bem usada hoje em dia, e funcionando até melhor.

O roteiro faz bastante questão que os temas de conexão humana, viver vs existir e estilos de vida estejam claros para a audiência, e Miranda July escreve tudo com habilidade próxima à perfeição. Todas as cenas recebem uma atenção admirável, e muito é dito sem o uso das palavras, causando uma rápida sensação de confusão ao espectador antes que, no instante seguinte, tudo fique claro. E esses momentos sempre trazem um aperto no coração, seja de pena ou reconhecimento.
(Spoilers a seguir, se você quiser ler, selecione o texto invisível abaixo)
Uma das cenas em que isso acontece é quando os quatro entram numa casa de um idoso para entrar na próxima fase do golpe mas quando percebem que o homem está prestes a morrer, para confortá-lo, fingem ser uma família real passando o resto do dia em casa. Toda a cena se afunila na perspectiva surpresa de Old Dolio e vemos o quanto ela anseia por aquela mentira.

O elenco, além das atrizes já citadas, conta ainda com Debra Winger e Richard Jenkins, que cumprem seus papéis maravilhosamente bem. As personalidades dos pais, Theresa e Robert, são feitas sob medida em função do próximo golpe, e depois o esquema depois desse. Eles não são os pais ruins convencionais, mas a negligência emocional que ambos têm para com a filha foi o início de tudo.
Mas é quando Old Dolio e Melanie interagem que a mágica acontece de verdade. É quando a audiência consegue um vislumbre mais nítido do interior da protagonista, mesmo que não haja diálogos em cena. Evan Rachel Wood realmente rouba a cena no filme inteiro, e é justo que sua reputação abranja também sua competência em longa metragens.

A direção de July comunica bastante. Pelo uso e controle de elementos de cena, é bem notável que era importante para ela que tudo saísse como foi escrito no roteiro, e apesar de que o próprio traz uma sensação de leveza e caos controlado, as imagens criadas são lindas e catárticas.
“Falsos Milionários” não é um filme para aqueles que estão atrás de um filme com o ritmo rápido e o foco é nos golpes e esquemas da família de vigaristas. O que o longa entrega é uma viagem muito mais intimista sobre conexões que ansiamos por desenvolver e as consequências de quando isso não acontece.




Excelente resenha!!!! Fiquei muito curiosa para assistir a esse filme!