"The House": Três Histórias, Três Avisos
- Helena Vilaboim

- Jan 19, 2022
- 3 min read
“The House” é um filme antológico original Netflix de stopmotion. Ele estreou na plataforma de streaming no dia 14 de Janeiro de 2022, e foi dirigido por 4 diretores distintos e estrito por Enda Walsh. Ele conta com apenas 1 hora e 37 minutos de duração.

O longa é uma narrativa de “histórias cruzadas” seguindo uma progressão temporal, sendo a única constante a casa que perdura por entre as fábulas aparentando ser um imã de situações que parecem saídas de um pesadelo. Na primeira narrativa, vemos a casa sendo construída e o terrível destino da família que primeiro a habita; na segunda, um obstinado corretor de imóveis toma para si a responsabilidade de reformar a casa e no caminho acaba por se render a uma situação agoniante. A terceira narrativa, certamente a mais otimista das três, segue uma senhoria que luta para manter a casa de pé, relutando em aceitar o destino do qual ela não consegue fugir.

O roteiro conciso e econômico de Enda Walsh se prende muito mais na tarefa muito bem feita de captar a atenção do espectador por meio das sensações do que da lógica. Isso por que as fábulas - pois é possível notar lições ao final de cada curta - não seguem uma ordem cronológica linear, e os personagens não são sempre humanos, deixando sempre um mistério entre as histórias e sua processão.

Entre as fábulas, é possível perceber que o roteiro costura um tema em comum entre as três histórias, que é relacionado à ganância. A finalização de todas as fábulas dão a sensação de nos lembrar que é preciso ter cuidado com o que desejamos, e que é preciso as vezes recusar uma oportunidade que parece maravilhosa, pedir ajuda quando for necessário e não se prender muito ao passado.
Num filme antológico como “The House”, faz sentido que uma equipe de diretores seja chamada para realizar o projeto, ainda mantendo a individualidade de cada narrativa visual. A equipe formada por Emma de Swaef, Marc James Roels, Niki Lindroth von Bahr e Paloma Baeza cria tramas que se encaixam umas nas outras, ainda que cada diretor teve a liberdade de trazer seu estilo preferido para o design de cada fábula contada. O resultado é um mosaico de imagens que cai no Vale da Estranheza*, enganando a audiência que pensa que as histórias serão inofensivas.

Isso porque de início, não parece possível que uma história de pesadelo aconteça em cenários tão charmosos e bem feitos, bem iluminados e num lugar que é realmente adorado por seus moradores. É como o filme nos pega de surpresa.
Contrastando com isso, o compositor do longa, Gustavo Santaodalla, faz um trabalho maravilhoso em criar trilhas que se adequam aos períodos representados na cena, e de quebra gelando nosso sangue quando os desfechos acontecem.
“The House” é um filme que parece saborear a confusão da audiência, a desorientação, o sentimento de desamparo e puro desespero que as fábulas conseguem transmitir muito bem, chegando ao objetivo do filme sem problemas. O longa é certamente daqueles que algumas cenas vão demorar a sair da cabeça dos espectadores.
* "Vale da Estranheza" é uma teoria de estética que classifica situações em que o cérebro humano se confunde devido a situações que se classificam como ameaçadoras e não ameaçadoras ao mesmo tempo. Como um robô que tenta imitar as expressões humanas, mas não está muito fiel, causando repulsa e estranheza.




Comments